Não há mais emoção. Há apenas vazio. Ao tentar sentir, quase morro. O que de mais valioso tinha, hoje não mais me pertence. Foi dividido. Oxalá, multiplicado. Não posso saber, afinal, de mim já partiu.
Palavras torpes são profanadas por esta voz dissonante e, raramente, plácida.
A miscigenação da alma, enfim, ocorreu.
Quem sou, pois?
E, ao soar dessa pergunta, que não cala diante do barulho dos auto-falantes que insistem em passar sob minha janela, desesperadamente, dou-me conta de que algo está perdido.
Seria eu?
Tento encontrar algum resquício de familiaridade nessa imagem prostrada no espelho, mas não a reconheço. A expressão refletida me é totalmente ignota.
Os olhos são ausentes.
Não há intensidade. E sem intensidade, não há o ser.
Onde fui esconder-me, Senhor a quem desconheço?
Busco nas lembranças qualquer centelha de vida que me faça, ao menos, recordar quem um dia fui...
E então, semblantes desfiguram-se e configuram-se diante de meus olhos, que, estranhamente, estão fechados.
Mesmo assim eu vejo.
São rostos amigos.
Amigos que marcaram os segundos mais importantes de toda minha ignóbil existência.
Eles, porquanto, trouxeram-me o que de mais majestoso tinham. Trouxeram cor, luz e música.
E um pote cheio de mel.
E eu, pobre de tantas coisas, dei a cada um deles um fragmento da única coisa que possuía: um fragmento do amor que outrora inundou meu ser.
E ele brilhava tanto!
Meus amigos possuem o meu amor. Incondicional. Total.
E eu sonho (ó sim, eu ainda posso sonhar!) que assim, todos me carregam consigo. E que zelam pela coisa mais bonita que alguém um dia é capaz de ter.
E, quando a partida não mais puder ser adiada, de convicções levarei apenas esta: eu tive amigos!
sábado, 3 de janeiro de 2009
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
A esperança de um pássaro
31 de dezembro de 2000.
Eu fechei os olhos no preciso instante em que um som estrondoso dissipou-se e se perdeu no vácuo. Quando os abri novamente, vi respingos de luzes colorindo o céu, anunciando que algo fantástico havia se dado. Caminhei então pelas ruas da sempre pacata cidade, e vi que as pessoas, como eu, haviam saído de seus lares, e a tranqüila cidade já não estava mais tão sossegada assim. Vi, pois, a vida pulsando nos olhos do menino que, à beira da calçada, regozijava-se com uma porção de fritas. Vi o lampejo da esperança reascendendo, aos poucos, nos olhos de cada homem que por mim passou. E assim, ao som da música e dos votos infindáveis de felicidade, eu entendi que não havíamos somente iniciado um novo ano, mas sim, tinha nos sido dado por Aquele que tudo comanda a oportunidade única - uma vez que estamos cientes da perenidade do ser dito humano - de transpor um século.
Mal sabia eu que as fagulhas de fogos de artifício que caíram sobre as alamedas da minha pacata cidade naquele primeiro dia do ano 2001, preconizariam o que, meses depois, se repetiria bem longe dali, e roubaria a vida de centenas de pessoas. Memórias que o tempo não guardaria. Anônimos que jamais descobririam o significado das palavras doçura e proteção. Histórias que se apagariam antes mesmo de brilharem... A humanidade ficaria mais frágil. E a esperança, outrora flamejante, escureceria aos poucos.
Naquele ano, senti a força da impotência como nunca havia sentido. Quê ou quem eu era, além de milhões de células e uma suposta alma que não creio ao certo se possuo, em meio a tanto horror e destruição? Não, não queria pensar no senhor de 80 anos que passava frio, deitado na praça que havia custado mais de meio milhão de reais aos cofres públicos da minha pacata cidade. Não queria lembrar das crianças desejosas de uma fatia de bolo, e que não a podem e, provavelmente, nunca a poderão comprar. Não queria recordar o cão que, inda a pouco, passara por mim e viera lamber-me os pés, sem nada pedir além de um afago, e eu negara. Não, não poderia - ou, melhor, não desejava – acreditar que essa era a minha triste e melancólica realidade. O mundo deveria estar equivocado.
Não conseguia compreender o sentido que há em sempre guardar um resquício de esperança no cantinho do coração. Essa esperança infundada que permite a todos acordar a cada novo dia e esperar que um milagre aconteça, e nos dissipe todos os problemas. Não seria melhor não mais trabalhar, não mais acordar, não mais sonhar?
Qual era realmente o sentido da vida?
2008.
Como muitos, tento crer que as coisas estão acertadas. Mas, por vezes, durante tênues segundos, que tampouco posso claramente afirmar se existiram ou foram somente subterfúgios de uma imaginação torpe, sinto a Criação saindo de seu eixo e indo ao encontro de sua própria decadência. Vejo que a linha que separa a loucura da sanidade é débil como uma arma nas mãos de uma criança qualquer.
É chegada a hora da renovação. Este é o século que preconiza uma era mais justa. É o tempo do amor. Orgulhar-me hei de poder contar aos meus, Oxalá, bisnetos, que lá estive, na virada do século, no início da mudança. E eles não irão acreditar que este já foi um mundo cruel. Eu entrei no século XXI, contrariando a maioria, sem anseios ou esperança. Mas hoje, estranhamente, consigo ver novamente a luz que me alegrava quando menina, mesmo depois de ver as dezenas de pessoas mortas na Rússia. Muito sangue ainda se derramará, e não se faz necessário o dom da vidência para saber disso. Mas a luz que me iluminava enquanto criança, e que se constituía de todas as cores bonitas que existem, imperará. Não me foi feita nenhuma revelação mística ou divina, mas me foi concedida a graça de aprender a ver com os olhos do bem e da justiça. Essa esperança já não mais ocupa um cantinho escondido do coração, mas a totalidade infinita do espírito. E isso se deve ao fato de poder, ainda depois de tanto infortúnio, ouvir o canto de um bem-te-vi, que me acorda todos os dias e, posso até jurar, me sorri.
Eu fechei os olhos no preciso instante em que um som estrondoso dissipou-se e se perdeu no vácuo. Quando os abri novamente, vi respingos de luzes colorindo o céu, anunciando que algo fantástico havia se dado. Caminhei então pelas ruas da sempre pacata cidade, e vi que as pessoas, como eu, haviam saído de seus lares, e a tranqüila cidade já não estava mais tão sossegada assim. Vi, pois, a vida pulsando nos olhos do menino que, à beira da calçada, regozijava-se com uma porção de fritas. Vi o lampejo da esperança reascendendo, aos poucos, nos olhos de cada homem que por mim passou. E assim, ao som da música e dos votos infindáveis de felicidade, eu entendi que não havíamos somente iniciado um novo ano, mas sim, tinha nos sido dado por Aquele que tudo comanda a oportunidade única - uma vez que estamos cientes da perenidade do ser dito humano - de transpor um século.
Mal sabia eu que as fagulhas de fogos de artifício que caíram sobre as alamedas da minha pacata cidade naquele primeiro dia do ano 2001, preconizariam o que, meses depois, se repetiria bem longe dali, e roubaria a vida de centenas de pessoas. Memórias que o tempo não guardaria. Anônimos que jamais descobririam o significado das palavras doçura e proteção. Histórias que se apagariam antes mesmo de brilharem... A humanidade ficaria mais frágil. E a esperança, outrora flamejante, escureceria aos poucos.
Naquele ano, senti a força da impotência como nunca havia sentido. Quê ou quem eu era, além de milhões de células e uma suposta alma que não creio ao certo se possuo, em meio a tanto horror e destruição? Não, não queria pensar no senhor de 80 anos que passava frio, deitado na praça que havia custado mais de meio milhão de reais aos cofres públicos da minha pacata cidade. Não queria lembrar das crianças desejosas de uma fatia de bolo, e que não a podem e, provavelmente, nunca a poderão comprar. Não queria recordar o cão que, inda a pouco, passara por mim e viera lamber-me os pés, sem nada pedir além de um afago, e eu negara. Não, não poderia - ou, melhor, não desejava – acreditar que essa era a minha triste e melancólica realidade. O mundo deveria estar equivocado.
Não conseguia compreender o sentido que há em sempre guardar um resquício de esperança no cantinho do coração. Essa esperança infundada que permite a todos acordar a cada novo dia e esperar que um milagre aconteça, e nos dissipe todos os problemas. Não seria melhor não mais trabalhar, não mais acordar, não mais sonhar?
Qual era realmente o sentido da vida?
2008.
Como muitos, tento crer que as coisas estão acertadas. Mas, por vezes, durante tênues segundos, que tampouco posso claramente afirmar se existiram ou foram somente subterfúgios de uma imaginação torpe, sinto a Criação saindo de seu eixo e indo ao encontro de sua própria decadência. Vejo que a linha que separa a loucura da sanidade é débil como uma arma nas mãos de uma criança qualquer.
É chegada a hora da renovação. Este é o século que preconiza uma era mais justa. É o tempo do amor. Orgulhar-me hei de poder contar aos meus, Oxalá, bisnetos, que lá estive, na virada do século, no início da mudança. E eles não irão acreditar que este já foi um mundo cruel. Eu entrei no século XXI, contrariando a maioria, sem anseios ou esperança. Mas hoje, estranhamente, consigo ver novamente a luz que me alegrava quando menina, mesmo depois de ver as dezenas de pessoas mortas na Rússia. Muito sangue ainda se derramará, e não se faz necessário o dom da vidência para saber disso. Mas a luz que me iluminava enquanto criança, e que se constituía de todas as cores bonitas que existem, imperará. Não me foi feita nenhuma revelação mística ou divina, mas me foi concedida a graça de aprender a ver com os olhos do bem e da justiça. Essa esperança já não mais ocupa um cantinho escondido do coração, mas a totalidade infinita do espírito. E isso se deve ao fato de poder, ainda depois de tanto infortúnio, ouvir o canto de um bem-te-vi, que me acorda todos os dias e, posso até jurar, me sorri.
Exaltação ao absurdo
Valer-me da mesóclise me apraz.
Que ser estranho, dizem.
Um ser estranho ou um estar estranho?
Um estar de paralelepípedos.
Eu temo pela sobriedade deste curinga.
(Da série: ‘Devaneios de uma mente insana’)
Que ser estranho, dizem.
Um ser estranho ou um estar estranho?
Um estar de paralelepípedos.
Eu temo pela sobriedade deste curinga.
(Da série: ‘Devaneios de uma mente insana’)
Sonhaste ao longo de tua vida
Com o amor dos teus sonhos
E correste, correste
E inda durante tua vida acreditaste,
E esperaste
Pois lhe era certo que um dia chegaria
E caminhaste, e olhaste para todos os lados, e para tudo e nada viste...
Nada viste além do encardume
E nada sentiste além do poder que escapa dos esgotos
Mas inda assim continuaste a crer e a procurar
E procuraste então não mais sobre os tapetes vermelhos
Ou em meio ao ouro que ofusca,
Mas nos vilarejos e também nos rostos amargos e nas almas sofridas,
Todavia também não achaste ali.
Continuaste, contudo, a acreditar...
Todos os dias, todos os minutos,
Em qualquer centelha de vida que em meio a tantas mortes ainda lhe restara
E assim viveste... Até o fim.
Com o amor dos teus sonhos
E correste, correste
E inda durante tua vida acreditaste,
E esperaste
Pois lhe era certo que um dia chegaria
E caminhaste, e olhaste para todos os lados, e para tudo e nada viste...
Nada viste além do encardume
E nada sentiste além do poder que escapa dos esgotos
Mas inda assim continuaste a crer e a procurar
E procuraste então não mais sobre os tapetes vermelhos
Ou em meio ao ouro que ofusca,
Mas nos vilarejos e também nos rostos amargos e nas almas sofridas,
Todavia também não achaste ali.
Continuaste, contudo, a acreditar...
Todos os dias, todos os minutos,
Em qualquer centelha de vida que em meio a tantas mortes ainda lhe restara
E assim viveste... Até o fim.
Ajude-me a encontrar um sentido
E diga que essa noite você me fará feliz
Tirando do peito toda dor
Toda dúvida, toda angústia
Apagando as trevas do coração
Não, não vá embora
Só por hoje fique a meu lado
E quando o sol chegar
Diga-me bom dia
E me abrace forte.
E então se você me disser adeus
Não haverão mágoas
E se você nunca mais voltar
Eu entenderei
Dê-me um sentido apenas essa noite
Seja minha busca
Seja meu homem
Apenas por hoje me dê segurança.
E diga que essa noite você me fará feliz
Tirando do peito toda dor
Toda dúvida, toda angústia
Apagando as trevas do coração
Não, não vá embora
Só por hoje fique a meu lado
E quando o sol chegar
Diga-me bom dia
E me abrace forte.
E então se você me disser adeus
Não haverão mágoas
E se você nunca mais voltar
Eu entenderei
Dê-me um sentido apenas essa noite
Seja minha busca
Seja meu homem
Apenas por hoje me dê segurança.
Cenas de morte como vida
Homens figuras
Uma tela talvez
De uma noite boêmia que ficou na lembrança
Como um século atrás
A solidão dessa noite
Que talvez seja a canção
E embale minha vida.
A procura incessante
Do amor que se esconde
A vida, a dúvida, a ânsia.
Orgias e devaneios
Um Cristo morto
Um demônio feliz
E quarenta dias de tristeza
Com a morte batendo à porta
Sangue
Dor e lágrimas
Num rosto distorcido
Pelo amor indiferente...
Passado.
Renascer agora basta
Quando tudo se foi, o recomeço é a única escolha
Assim como uma faca, como um punhal
Cravado no peito
Já cicatrizado
Quase novo.
Ilumina-me a luz
Vem a mim a força
Talvez sobrenatural,
Mas força.
A cura da dor.
Quase cem noites mal dormidas
Com o demônio no corpo
Confrontando-se o desejo e o ódio
Vida e cura
A cada dia que passa
E o sol invadindo lentamente a alma...
Homens figuras
Uma tela talvez
De uma noite boêmia que ficou na lembrança
Como um século atrás
A solidão dessa noite
Que talvez seja a canção
E embale minha vida.
A procura incessante
Do amor que se esconde
A vida, a dúvida, a ânsia.
Orgias e devaneios
Um Cristo morto
Um demônio feliz
E quarenta dias de tristeza
Com a morte batendo à porta
Sangue
Dor e lágrimas
Num rosto distorcido
Pelo amor indiferente...
Passado.
Renascer agora basta
Quando tudo se foi, o recomeço é a única escolha
Assim como uma faca, como um punhal
Cravado no peito
Já cicatrizado
Quase novo.
Ilumina-me a luz
Vem a mim a força
Talvez sobrenatural,
Mas força.
A cura da dor.
Quase cem noites mal dormidas
Com o demônio no corpo
Confrontando-se o desejo e o ódio
Vida e cura
A cada dia que passa
E o sol invadindo lentamente a alma...
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