segunda-feira, 4 de abril de 2011

A decisão de não ter filhos

Normalmente as pessoas se chocam quando digo que não quero ter filhos. Ficam horrorizadas, escandalizadas (e, algumas, até revoltadas!) quando eu digo que não gosto de crianças. A verdade é que nunca gostei. Acho até bonitinho, fofinho, mas na estante dos outros. Digo, no colo dos outros.


Por muito tempo aleguei que não queria ter filhos pois sou egoísta demais para abdicar de minha liberdade em prol de um serzinho que dependeria única e exclusivamente de mim. Profanei a quem me perguntasse que não estaria nunca preparada para dividir meu tempo, meu dinheiro e minha atenção com uma criança. Balela. Fosse isso eu não teria nove gatos, dois cachorros e meia dúzia de cães de rua a que alimento.


Então cheguei à conclusão que egoísta é quem tem filhos! Normalmente quem tem filhos os tem para perpetuar seus genes (ainda que isso seja muitas vezes um desejo inconsciente), para ter alguém que lhes dê apoio na velhice, para ter alguém para projetar seus sonhos, alguém para amar e lhes amar, ou se orgulhar das boas notas, da aptidão pelo esporte ou por algum outro talento desenvolvido. E sempre (sempre!) esperam uma troca de afeto. Reciprocidade. Há sempre a idéia de receber algo em troca. Não venham me dizer que há total desprendimento, pois não há!


Em contraponto, o que posso esperar dos meus animaizinhos? Carinho? Não, quem tem gatos sabe o quão são independentes.

Disseram-me, há algum tempo, que eu ainda 'morderia a língua'. Que chegaria o tempo em que ser mãe seria uma necessidade. Talvez isso ocorra, mas eu dúvido muito. Adotar... Talvez. Conceber, gerar... Isso definitivamente não combina nem um pouco comigo. É a minha opção, e eu espero que chegue o dia em que as pessoas entendam e não recriminem quem optou por uma vida livre de amarras, livre da tal 'ordem natural das coisas', livre de compromissos que não estejam de acordo com a minha escolha pessoal de como viver cada um de meus dias.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Natal e as cebolas

O Natal me deixa triste. Fato.
Não gosto do Natal assim como não gosto das cebolas. Ambos têm um gosto bom, mas, diante da iminência, me fazem chorar.
Famílias grandes, unidas e que normalmente possuem uma ou várias crianças em seu seio costumam ter natais felizes, ainda que a fartura inexista. Felizes pois o amor e o desejo de reforçar laços é, de modo abstrato, ampliado nesta época do ano. Já àqueles que nada disso possuem resta o sentimento maximizado de solidão.
Natal pra mim é uma espécie de TPM potencializada.
Meu humor deverá melhorar depois que o Papai Noel for embora. Isso se eu não o matar na véspera.
Oremos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dos potes de margarina

Romantizar lhe era intrínseco. Culpa, talvez, da mãe, que a vestira de cor-de-rosa tão logo ela saíra de seu ventre, afinal, dizem que as primeiras impressões são as que efetivamente ficam.
Passou a ver o mundo com olhos de Afrodite e a acreditar que, em essência, tudo e todos possuíam a delicadeza das pétalas de rosas. Com o correr dos anos os dias lhe acrescentaram à vida histórias de paixão e amor, e a fizeram protagonizar muitas das cenas que permeavam seus pensamentos nas noites solitárias, quando somente o travesseiro pactuava de seus sonhos e lhe aquietava o peito ao oferecer sua cumplicidade. Nestes instantes, paradoxalmente, o silêncio a fazia ouvir, pois somente quando o desamparo lhe inundava as entranhas é que lhe provava que não há nada que se justifique em todo o universo quando se tem o coração desprovido daquilo que é passional.
E assim lágrimas eram forjadas entre incontáveis poemas mal escritos e composições inacabadas. Lágrimas ora de resignação, ora de credulidade, mas, principalmente, lágrimas repletas das tonalidades de seu mundo cor-de-rosa.
Trazia-lhe desassossego o eterno nó na garganta, o constante aperto no peito, o sentimento ininterrupto de nostalgia daquilo que ficara aprisionado no passado. Uma tristeza branda continuamente repousava em seu olhar. Mas não seria a tristeza uma condição daqueles que trazem o romantismo não em seus corações, mas em suas vísceras?
Aos poucos os ensaios da existência lhe apresentaram os matizes azuis, verdes, amarelos, vermelhos e outras infinitas nuances, mas nada demoveu aquela primeira impressão causada na infância. E foram botões de flores cor-de-rosa que vieram lhe acolher quando a velhice lhe curvou o corpo e não mais lhe permitiu enxergar a beleza do céu nos minutos que antecedem o adormecer do dia. Mas a ironia - a sempre implacável ironia - resolveu convidá-la a conhecer sua infame literatura de cordel e, logo ela, que passara a vida a colecionar resquícios de momentos que preservava nítidos na reminiscência dos sentidos, precisou, nos derradeiros dias de vida, abandonar o refúgio de sua alcova - o quarto de paredes cor-de-rosa que a acompanhara desde a infância e que fora seu calabouço, seu salvo-conduto, seu único e discreto confidente - pois ali já não havia mais espaço para comportar sua presença em meio às centenas de potes de margarina.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sob minha mesa jaz uma unha...

Sob minha mesa jaz uma unha.
Repousa agora, placidamente, apresentando ainda vestígios do vermelho volúpia que a acompanhou nos momentos finais de sua breve existência. Sua imponência e beleza talhadas à lixa, que de mim custaram dedicação e minutos preciosos, reduzir-se-ão a ninharia tão logo eu vire as costas e a moça da limpeza venha fazer sua faxina habitual.
Após meses de trabalho para mantê-la inviolável, ei-la despedaçada, mutilada, inerte.
É bizarro como algumas coisas podem tornar-se tão insignificantes após o fim.

Eis aqui a metáfora-mor da paixão.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Palavras torpes

Não há mais emoção. Há apenas vazio. Ao tentar sentir, quase morro. O que de mais valioso tinha, hoje não mais me pertence. Foi dividido. Oxalá, multiplicado. Não posso saber, afinal, de mim já partiu.
Palavras torpes são profanadas por esta voz dissonante e, raramente, plácida.
A miscigenação da alma, enfim, ocorreu.
Quem sou, pois?
E, ao soar dessa pergunta, que não cala diante do barulho dos auto-falantes que insistem em passar sob minha janela, desesperadamente, dou-me conta de que algo está perdido.
Seria eu?
Tento encontrar algum resquício de familiaridade nessa imagem prostrada no espelho, mas não a reconheço. A expressão refletida me é totalmente ignota.
Os olhos são ausentes.
Não há intensidade. E sem intensidade, não há o ser.
Onde fui esconder-me, Senhor a quem desconheço?
Busco nas lembranças qualquer centelha de vida que me faça, ao menos, recordar quem um dia fui...
E então, semblantes desfiguram-se e configuram-se diante de meus olhos, que, estranhamente, estão fechados.
Mesmo assim eu vejo.
São rostos amigos.
Amigos que marcaram os segundos mais importantes de toda minha ignóbil existência.
Eles, porquanto, trouxeram-me o que de mais majestoso tinham. Trouxeram cor, luz e música.
E um pote cheio de mel.
E eu, pobre de tantas coisas, dei a cada um deles um fragmento da única coisa que possuía: um fragmento do amor que outrora inundou meu ser.
E ele brilhava tanto!
Meus amigos possuem o meu amor. Incondicional. Total.
E eu sonho (ó sim, eu ainda posso sonhar!) que assim, todos me carregam consigo. E que zelam pela coisa mais bonita que alguém um dia é capaz de ter.
E, quando a partida não mais puder ser adiada, de convicções levarei apenas esta: eu tive amigos!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A esperança de um pássaro

31 de dezembro de 2000.
Eu fechei os olhos no preciso instante em que um som estrondoso dissipou-se e se perdeu no vácuo. Quando os abri novamente, vi respingos de luzes colorindo o céu, anunciando que algo fantástico havia se dado. Caminhei então pelas ruas da sempre pacata cidade, e vi que as pessoas, como eu, haviam saído de seus lares, e a tranqüila cidade já não estava mais tão sossegada assim. Vi, pois, a vida pulsando nos olhos do menino que, à beira da calçada, regozijava-se com uma porção de fritas. Vi o lampejo da esperança reascendendo, aos poucos, nos olhos de cada homem que por mim passou. E assim, ao som da música e dos votos infindáveis de felicidade, eu entendi que não havíamos somente iniciado um novo ano, mas sim, tinha nos sido dado por Aquele que tudo comanda a oportunidade única - uma vez que estamos cientes da perenidade do ser dito humano - de transpor um século.
Mal sabia eu que as fagulhas de fogos de artifício que caíram sobre as alamedas da minha pacata cidade naquele primeiro dia do ano 2001, preconizariam o que, meses depois, se repetiria bem longe dali, e roubaria a vida de centenas de pessoas. Memórias que o tempo não guardaria. Anônimos que jamais descobririam o significado das palavras doçura e proteção. Histórias que se apagariam antes mesmo de brilharem... A humanidade ficaria mais frágil. E a esperança, outrora flamejante, escureceria aos poucos.
Naquele ano, senti a força da impotência como nunca havia sentido. Quê ou quem eu era, além de milhões de células e uma suposta alma que não creio ao certo se possuo, em meio a tanto horror e destruição? Não, não queria pensar no senhor de 80 anos que passava frio, deitado na praça que havia custado mais de meio milhão de reais aos cofres públicos da minha pacata cidade. Não queria lembrar das crianças desejosas de uma fatia de bolo, e que não a podem e, provavelmente, nunca a poderão comprar. Não queria recordar o cão que, inda a pouco, passara por mim e viera lamber-me os pés, sem nada pedir além de um afago, e eu negara. Não, não poderia - ou, melhor, não desejava – acreditar que essa era a minha triste e melancólica realidade. O mundo deveria estar equivocado.
Não conseguia compreender o sentido que há em sempre guardar um resquício de esperança no cantinho do coração. Essa esperança infundada que permite a todos acordar a cada novo dia e esperar que um milagre aconteça, e nos dissipe todos os problemas. Não seria melhor não mais trabalhar, não mais acordar, não mais sonhar?
Qual era realmente o sentido da vida?
2008.
Como muitos, tento crer que as coisas estão acertadas. Mas, por vezes, durante tênues segundos, que tampouco posso claramente afirmar se existiram ou foram somente subterfúgios de uma imaginação torpe, sinto a Criação saindo de seu eixo e indo ao encontro de sua própria decadência. Vejo que a linha que separa a loucura da sanidade é débil como uma arma nas mãos de uma criança qualquer.
É chegada a hora da renovação. Este é o século que preconiza uma era mais justa. É o tempo do amor. Orgulhar-me hei de poder contar aos meus, Oxalá, bisnetos, que lá estive, na virada do século, no início da mudança. E eles não irão acreditar que este já foi um mundo cruel. Eu entrei no século XXI, contrariando a maioria, sem anseios ou esperança. Mas hoje, estranhamente, consigo ver novamente a luz que me alegrava quando menina, mesmo depois de ver as dezenas de pessoas mortas na Rússia. Muito sangue ainda se derramará, e não se faz necessário o dom da vidência para saber disso. Mas a luz que me iluminava enquanto criança, e que se constituía de todas as cores bonitas que existem, imperará. Não me foi feita nenhuma revelação mística ou divina, mas me foi concedida a graça de aprender a ver com os olhos do bem e da justiça. Essa esperança já não mais ocupa um cantinho escondido do coração, mas a totalidade infinita do espírito. E isso se deve ao fato de poder, ainda depois de tanto infortúnio, ouvir o canto de um bem-te-vi, que me acorda todos os dias e, posso até jurar, me sorri.

Exaltação ao absurdo

Valer-me da mesóclise me apraz.
Que ser estranho, dizem.
Um ser estranho ou um estar estranho?
Um estar de paralelepípedos.

Eu temo pela sobriedade deste curinga.


(Da série: ‘Devaneios de uma mente insana’)