sábado, 14 de abril de 2012

Numa fase ótima!


(Trecho de um e-mail enviado a um amigo )

Pois é. Estou assim. Numa fase ótima.
No sábado passado cheguei em casa toda escabelada, com a meia calça furada embaixo do pé, com o sapato na mão, com a blusa suja de cerveja e com a alça da bolsa arrebentada... E tranquei o carro com a chave dentro! Como que eu consegui vir dirigindo até em casa é uma incógnita. Vomitei, caí da cama e, quando consegui dormir, sonhei que era astronauta.
Ri litros de tudo isso no dia seguinte. Eu já não sofro mais de ressaca moral.
Pois é. Estou assim. Numa fase ótima.
Onde não preciso fazer nada para agradar ninguém. Onde posso ter meus quatorze gatos e comer chocolate quando me der vontade sem nenhum chato pra me torrar a paciência. Com tempo para focar nos estudos ao invés de ficar pensando nos problemas de uma relação frustrada. Com tempo para planejar a visita às amigas que moram longe, e quem sabe me apaixonar no meio do caminho. E no outro dia me desapaixonar, e me apaixonar de novo. Eita coração boêmio esse meu!
Claro que eu quero um amor, daqueles para vida toda, com direito a andar de mãos dadas, dormir agarradinho, fazer cócegas pela manhã, dividir um pote de sorvete... Claro que eu quero casa, viagem romântica no final de semana, jardim, cachorro e gato. Claro que eu quero. Casar de branco? Quero! Até por que eu acho que seria uma noiva bonita! Mas não vou ficar chorando e esperando que a vida me envie o príncipe encantado. Se aparecer, apareceu. Se não aparecer... Bem... ai eu entro para um grupo da terceira idade quando chegar a hora, e vou conhecer o mundo.
Acho que voltei à adolescência, né? Só falta agora voltar a fumar maconha ouvindo Nirvana!
Estou assim. Pois é! Numa fase ótima!

sábado, 17 de março de 2012

Estranho

E eu estava ali, desfazendo aquela mala em uma noite de sexta-feira, quando encontrei uma caixinha de um presente que você havia me dado há quase três anos. Sim, eu guardara a caixinha do presente como quem guarda uma safira. Eu e minha mania de não conseguir desapegar, pensei.
E pensei em você. E em tudo o que não te disse. Mas, principalmente, em tudo o que um dia eu te disse, e que jamais deveria ter dito. Porque, embora eu não soubesse naquela época, eu te disse várias mentiras. Gostar do teu carro prata foi uma delas. Gostar da tua coleção de camisas de futebol foi outra.
Hoje, e só hoje, eu me dei conta. Me dei conta de que eu nunca te amei (e, pelo menos, essa foi uma mentira que eu nunca te contei). Porque, se eu tivesse te amado, eu não teria te deixado partir.
O estranho nisso tudo é eu não ter deixado de pensar. Pensar em ti, nas tuas manias e defeitos detestáveis, e na forma como tudo terminou. Estranho, quase três anos depois, eu aqui, escrevendo sobre você, apesar de nunca ter escrito para você. Querendo que você me desculpe por tudo, querendo ainda que você me peça perdão por tudo. Tudo o quê? Já nem lembro ao certo. Nem da mágoa - minha memória nunca foi boa para rancores. Talvez por isso eu nunca tenha entendido a tua raiva.
E agora você deve estar em uma sala de cinema, e sequer deve lembrar de mim. Tudo é tão estranho, né? Dividimos a cama, as contas e o xis de stroggonof, e agora? Nosso erro foi nunca ter dividido sonhos.
Não, eu não sinto a sua falta. É sério. Eu só sinto falta de momentos como aquele em que você bateu o carro porque não conseguia parar de me olhar.
Estranho.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Rumo ao lugar comum

E lá vou eu recolher meus sapatos, meus trapos, meus cacos.
E lá vou eu outra vez enfiar o sonho na mochila, acomodá-la nas costas e partir.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

E...

E quando meu rosto tocou o travesseiro naquela noite, era o teu cheiro que eu sentia. Então, eu quis escrever. Escrever dessas prosas loucas que nos invade o pensamento e manda o sono embora...

Em alguma rádio mal sintonizada tocava Patience, e eu pensei que nada poderia ser mais apropriado para embalar aquela noite insone, especialmente pelos ares de adolescência que essa canção traz. Sei que você saberá a razão de eu citar isso.

Estranho eu escrever assim, como se tivesse a certeza de que, um dia, você lerá essas palavras desordenadas... Mas você mesmo disse, certa noite, que eu escrevo tão bem. Eu deveria te agradecer o elogio, e esse texto talvez seja uma forma de te dizer obrigada.

E há tantas coisas que eu não sei, como sua banda preferida, o lado da cama que você dorme, a cor da sua escova de dentes... E tantas outras que eu descobri, como sua preferência por uísque, seu horror à calabresa, seu mal gosto para o futebol, e algumas das suas manias protocolares (é assim que você chama, não?).

Mas, entre as tantas outras coisas que eu já sei é que jamais poderei permitir me apaixonar por ti... Fique sossegado, menino. Eu também sou uma boa moça. Eu só vou lamentar e fumar um ou dois cigarros, beber um Cosmopolitan e esquecer, afinal você já deu as cartas.

Saiba apenas que isso não impedirá que meu pensamento voe até você na hora mais inesperada.

E a crise de consciência ainda não veio e então eu decidi que, enquanto for bom, enquanto a gente quiser, enquanto a vontade nos mantiver, de uma forma ou outra, ligados, eu te quero perto, ainda que eu precise esperar a primavera chegar.



“And it'll work itself out fine

All we need is just a little patience…

I can't have you right now I'll wait...”

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A ou B

E as pessoas te rotulam de tantas coisas, como se uma característica anulasse as demais. E então o cara é gay, aquela mulher é vagabunda, o outro tem problemas com drogas, a vizinha é fofoqueira, e ponto.
Como se não houvesse espaço para mais nada.
Como se não tivessem o direito de ser outra coisa a não ser aquilo que o rótulo impôs.
As pessoas, ora, não são apenas 'a' ou 'b'.
O rockeiro também acorda cedo para trabalhar, a vagabunda também cuida da avó idosa, o alcoólatra tem um poodle.
Meu caro, eu te digo: somos todos reticências. No máximo, algumas aspas!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O marido rico.

Pois é. Depois de um sonho muito estranho na noite retrasada, em que sonhei que estava casando com um vestido horrível e contra minha vontade, comecei a me perguntar: por que, afinal, eu ainda não casei?
Não, acreditem, não foi por falta de noivo! Não que eu seja a personificação da mulher ideal para casar, pelo contrário, mas alguns ex-namorados (plural) já cometeram o desatino de me pedir em casamento. Rompi com todos eles. Inclusive com um apressadinho que, na primeira semana de namoro, já planejava a lua-de-mel.
Por que lembrei dele? Por que a vida é mesmo estranha. Ou, melhor, a gente é meio estranho. Bem, pelo menos eu sou. Observando um velho amigo e sua esposa (cerca de 20 anos mais jovem), me ocorreu o pensamento de que ela tinha tido sorte, afinal, meu amigo é bem de vida, boa praça, engraçado, e um homem sensível como poucos. Dez segundos após me ocorrer tal pensamento, começaram meus questionamentos interiores: Sorte? Se estou achando que a dita cuja teve sorte, por que eu não casei com aquele ex-namorado apressadinho? Até hoje, passados quase dois anos, ele ainda não me tirou do pedestal que havia me posto. É engraçado, inteligente, sensível, atencioso e... R-I-C-O!!! Sim, o tal marido rico que muitas Natalhie's Lamour's da vida real almejam. E eu não quis. Eu dispensei o marido rico. E fico agora falando que a esposa do meu amigo rico tem sorte. Bem, talvez para ela uma vida de 'madame' baste. Para mim, nunca bastou. Dinheiro é muito importante, mas a verdade é que, nesses assuntos de coração, eu sou ainda a mesma menina ingênua que aos 12 anos sonhava com o príncipe encantado. Tem que me fazer sentir as pernas bambas e o coração saltando pela boca ao primeiro olhar. Se não for assim, prefiro os sonhos - ainda que neles meu vestido de noiva pareça uma árvore de natal rendada.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Encontro

Naquela manhã acordei agitada. Bem da verdade, nem sequer dormi. O encontro que eu vinha postergando há anos aconteceria naquela noite. Eu estava tensa. O dia demorou a passar. Não consegui trabalhar direito, a cabeça estava em outro lugar. Até que chegou a hora. Relutei até o último minuto, e minha vontade, confesso , era a de sair correndo, fugir. Mas eu sabia que daquele encontro dependeria a minha vida. Pontualmente, às 23h, ela estava lá. Eu também.


Num primeiro momento, quase não a reconheci. Fazia anos que não a via. Tinha me esquecido de como seus olhos brilhavam, de como seu sorriso era contagiante.


Ela me cumprimentou com um abraço caloroso, porém seu semblante revelava certo ar de contrariedade. De reprovação, eu arriscaria dizer.


Sentamos. Ela pediu ao garçom uma pizza – qualquer uma que tivesse bacon e catupiry servia.


Por um minuto – que pareceu durar uma vida inteira – não dissemos nada. Apenas contemplamo-nos. Era estranho estar ali, depois de tanto tempo. Minha vontade ainda era a de sair correndo.


Reparei em como suas mãos eram bonitas. Ela finalmente parara de roer unhas! Mas continuava usando roupas pretas, o cabelo ainda era vermelho, meio desajeitado, e o número de tatuagens espalhadas pelo corpo parecia ter crescido em uma proporção considerável. Usava ainda uma maquiagem carregada nos olhos, e um anel de coruja.


Disse-me que ainda acreditava em bruxas, ouvia Legião Urbana, chorava com Patience, e mantinha um diário secreto. E ainda não aprendera a fazer bolos nem pão de queijo decentes.


Ela elogiou minha roupa. Achou meu cabelo meio careta, e questionou se eu ainda era fixada em sapatos como em tempos passados. Achou que 138 pares, em se tratando de mim, não eram um exagero, e sorriu.


Reparou também nos meus brincos, nos anéis e no delicado colar que eu usava. Disse que nunca me vira tão elegante, tão bonita. E riu quando eu lhe disse que ainda não havia conseguido perder aqueles 7 quilos que me atormentavam desde a adolescência.


Fez-se mais um minuto de silêncio, e então ela, direta como sempre, colocou um ponto final nas amenidades. Estávamos ali para falar de algo muito sério.


Sem cerimônias, com certa brutalidade até, ela desenterrou o passado e esparramou-o sobre a mesa. E passou a me dizer tudo aquilo que eu não queria ouvir.


Chamou-me de covarde. E quem dera esse tivesse sido a maior das maledicências.


O que doeu mesmo, foi quando ela me perguntou por que eu havia me afastado de meus amigos, onde estavam os meus sonhos, meus livros,meus discos de vinil, meus gatos.


Opa! – gritei. “Os gatos estão em casa, dormindo”, disse-lhe.


- E o violão?


Ah, só ela sabia me ferir como ninguém mais seria capaz.


Respondi-lhe que ainda não aprendera a tocar. E ela me perguntou até quando eu adiaria também isso.


Óbvio que ela nem ousou me perguntar como iam as aulas de natação, de pintura, e a eterna promessa de largar o chocolate. Não era necessário, pois ela sabia de antemão a resposta.


Seus olhos me recriminavam. Minha vontade de fugir dali cresceu exponencialmente. Não, eu não conseguiria suportar tudo aquilo de uma só vez.


Abruptamente, ela levantou-se e deu-me um soco no estômago. E a ânsia de vômito e a dor que sobrevieram fizeram-me encolher na cadeira.


Só consegui levantar agora.


Ainda estou zonza com tudo isso. Mas sei que não terminou. Temos outro encontro marcado para sexta-feira. Ainda existem muitas pendências.